Jejuar não significa passar fome. Padre Inácio Medeiros, Missionário Redentorista, ressalta que a prática do Jejum é um ato penitencial que ganha força no tempo da Quaresma, mas que pode e deve ser utilizada durante todo o resto do ano.
“A partir do advento de Jesus Cristo e do seu sacrifício redentor, paixão, morte e ressurreição, a Igreja começou a utilizar essa prática também como uma forma de penitência”, salienta o Missionário Redentorista.
Padre Inácio acrescenta que o Jejum age englobadamente com outros exercícios de penitência que, no fundo, são um sinal externo da conversão do coração, da mudança de vida, da transformação da própria vida.
Pelo jejum recorda-se que "não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que vem da boca de Deus" (Mt 4,4). Por meio dessa penitência, o cristão é estimulado a desapegar o coração de todos os bens que acaso o impeça de amar e servir a Deus acima de todas as coisas. Praticar, retamente, a abstinência de alimentos o faz sentir a precariedade e a fugacidade da vida neste mundo e o ajuda a ordenar a existência para Deus. O jejum corporal faz parte das práticas espirituais de quase todas as religiões, dando-lhes um significado sagrado.
Ao jejuar, o cristão deve concentrar-se não somente na abstenção de alimentos ou de bebidas como também no significado mais profundo dessa prática. O alimento e as bebidas são indispensáveis para o homem viver, disso se serve e deve servir-se, mas não lhe é lícito abusar seja da forma que for. O jejum tem como finalidade nos levar a um equilíbrio necessário e ao desprendimento daquilo que podemos chamar de “atitude consumista”, característica da nossa civilização.
É preciso entender que a renúncia às sensações, aos estímulos, aos prazeres e ainda ao alimento ou às bebidas, não é um fim em si mesmo, mas apenas um “meio” a fim de preparar o caminho para conquistas mais profundas. A renúncia do alimento deve servir para criar condições para a vivência dos valores transcendentais. Por isso, essa prática espiritual não pode ser algo triste, enfadonho, mas uma atividade feliz e libertartadora.
Outra consideração importante é que a prática se distingue da abstinência de carne, que deve ser colocada em prática na Quarta-Feira de Cinzas, que marca o início da Quaresma, e na Sexta-Feira da Paixão.
O jejum e a Palavra de Deus
A Bíblia recomenda muito o jejum tanto no Antigo como no Novo Testamento. Jesus o realizou por quarenta dias no deserto antes de enfrentar o demônio e começar a vida pública; e o recomendou por diversas ocasiões. “Quanto a esta espécie de demônio, só se pode expulsar à força de oração e de jejum” (Mt 17,20). “Boa coisa é a oração acompanhada de jejum, e a esmola é preferível aos tesouros de ouro escondidos” (Tb 12,8).
Na "palavra de ordem" supracitada no livro do profeta Joel (cf. Jl 2, 12-13), Deus diz que é muito mais necessário "rasgar o coração" do que as vestes. Esta Palavra se aplica muito bem ao jejum, porque muito mais do que ficar sem comer isso ou aquilo, deve-se repassar para os menos favorecidos tudo o que não é consumido e o que é excedente. O jejum bem feito também nos dá a possibilidade de reconhecer as nossas faltas e misérias, porque, por meio dele, vemos o quanto ainda somos egoístas e mesquinhos.
A Igreja chama o jejum de “remédio contra o pecado”; pois essa atividade ajuda a todos a vencer o maior mal deste mundo: o pecado. Essa prática fortalece o espírito contra as tentações da carne, liberta e abre o ser para os valores superiores da alma.
A Igreja Católica Apostólica Romana coloca como preceito o jejum na Sexta-feira da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo e na Quarta-feira de Cinzas, no entanto, é possível e recomendável lançar mão dessa arma eficaz todas as sextas-feiras, como pede Nossa Senhora em suas aparições em Fátima, Portugal.
O jejum que agrada a Deus vai muito além das práticas de mortificação ou abstinência. O verdadeiro jejum deve partir do coração, provocar libertação e mudança de vida, ou seja, de comportamento. Senão, de nada vale, visto que a maior prova da vida de oração e jejum é o bem comum, cujo objetivo deve mudar o comportamento de quem o pratica com Deus e com os irmãos. De que adianta rezar muito e fazer exercícios espirituais se o comportamento de quem os pratica não muda?
Os santos sempre fizeram do jejum uma arma poderosa contra as forças malignas. A fé exige atos práticos e concretos, que revelem os resultados da conversão.
Importante – O jejum não deve ser feito como algo obrigatório ou rotineiro. Assim como tantos outros exercícios que a Igreja propõe, a prática deve ser uma expressão do amor. “Se for feito assim, perde seu sentido e sua razão”, aponta o Redentorista.
Implicações – De acordo com Pe. Inácio Medeiros, o jejum não implica que a pessoa vá ficar o dia inteiro sem se alimentar. A proposta é reduzir o mínimo possível a alimentação, como demonstração de desprendimento dos bens materiais, dentre eles, o alimento, que é uma questão de subsistência. A prática implica que os fiéis cresçam na comunhão com Jesus Cristo e com todos os valores que o Redentor nos deixou.
Recomendações – E o jejum pode ser feito durante toda a Quaresma. Tradicionalmente, a prática é mais comum às sextas-feiras, pelo fato de o dia da semana recordar a Paixão e a morte de Jesus Cristo.
Pessoas que têm menos de 16 anos ou 18 anos e também aquelas maiores de 65 anos estão dispensadas de fazer o jejum. Portadores de alguma doença ou problema físico, também. “Quem deve praticar o jejum são aquelas pessoas que tenham pleno vigor físico, ou seja, dos 16 ou 18, até os 65 anos”, explica Pe. Inácio.
O fundador da Comunidade Canção Nova, Monsenhor Jonas Abib, é autor do livro “Práticas de Jejum”, que enfoca o assunto. Segundo o religioso, há quatro tipos básicos de jejum. A seguir, conheça cada um deles
1. Jejum da Igreja
O básico é que aquele que opte pela prática tome o café da manhã normalmente e depois faça apenas uma refeição (almoço ou jantar), substituindo a outra que não for feita por um lanche simples. “O importante, e aí está a essência do jejum, é a disciplina, e é você não comer nada além dessas refeições”. Evitar completamente, no dia do jejum, balas, doces e biscoitos também fazem parte da prática, assim como abrir mão de refrigerantes, bebidas e cafezinhos.
2. Jejum a pão e água
A proposta é que se coma pão quando houver fome e que se beba água quando estiver com sede. Porém não é permitido ingerir os dois itens ao mesmo tempo. “É melhor ir comendo aos poucos durante todo o jejum. Também se deve beber água várias vezes no decorrer do dia”, recomenda Pe. Jonas.
3. Jejum à base de líquidos
Nesse tipo de jejum, o praticante deve passar o dia se alimentando apenas com líquidos, como sucos, chás e caldos de verduras, legumes e até carnes. “Tratando-se de líquidos, temos uma grande variedade de opções e de combinações possíveis; todas elas nos mantêm alimentados e bem dispostos sem a quebra do jejum”, salienta.
4. Jejum completo
Esse tipo de jejum implica que a pessoa não ingira qualquer tipo de alimento e apenas beba água. Segundo Pe. Jonas, é recomendável que, antes de praticá-lo, o fiel já tenha feito jejum a pão e água e o jejum à base de líquidos, como treinamento.
No jejum completo, é fundamental beber água várias vezes ao dia. Porém, existe a possibilidade de fazer o jejum sem ingerir água – o que é recomendável às pessoas mais experientes nessa prática.
Monsenhor Jonas Adib destaca que o fundamental é ter em mente que o jejum não significa um teste de resistência. “Não precisamos provar nada a ninguém: nem a nós, nem ao Senhor. O objetivo do jejum é nos encontrar com Deus, favorecer a oração e nos disciplinar. Ele serve para nos abrir à Graça da contemplação, da intercessão, a da Unção do Espírito Santo”, complementa.
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